Ser X Parecer Bem-Sucedido

Nada mais velho do que falar em novidades. Na sociedade dita moderna, a cada instante algo novo salta aos nossos olhos para no minuto seguinte desaparecer como se nada tivesse acontecido antes. Tudo fica velho e passa muito rápido.
Diante de tantas novidades, onde empresas surgem e desaparecem num piscar de olhos, estrelas do mundo corporativo acendem e se apagam instantaneamente, resta-nos uma pergunta intrigante: qual o segredo das companhias que atravessam décadas e décadas a fio e continuam cada dia com maior pujança?

O que elas têm em comum?

Essa não é uma pergunta nova. Em meados da década de 90 dois pesquisadores da universidade de Stanford, James C Collins e Jerry I. Porras publicaram os resultados do estudo por eles dirigido que se tornou o clássico livro Build to last – Sucessful of visionary companies, que em português ficou com o título de Feitas para durar – Práticas bem sucedidas de empresas visionárias. Ele traz exatamente a resposta para essa questão.

O estudo analisou 36 empresas, sendo 18 de alto desempenho e 18 “quase tão boas” quanto, utilizadas como grupo de comparação. Boa parte dessas companhias têm mais de cem anos e todas são ainda existentes e muito bem sucedidas.

Um dos aspectos fundamentais do resultado do trabalho é a constatação de que a maioria das organizações com desempenho superior têm um conjunto de valores fortemente disseminados por toda empresa, a maioria deles de cunho “humanista” e “iluminado”, como define o autor.

O que isso tem a nos dizer?

Muito. Você já deve ter ouvido histórias de um tempo onde a maior garantia que uma pessoa ou uma empresa poderia dar era sua palavra. Tudo se baseava no “fio do bigode” como se costumava falar. Bons tempos!

Sem nos perder em saudosismos, grande parte das empresas e das pessoas passou a viver sob o auspício da imagem. Onde o que se projeta ser é mais importante do o que se é, ou intenta ser. O falso marketing veio corroborar muito com isso.

Para alguns profissionais desavisados (mal intencionados), a propaganda (nome utilizado indiscriminadamente para se fazer algo parecer o que não é!) era um santo remédio. Dava-se um banho de loja num velho produto, lustrava o velho sapato e lá estava ele pronto para despertar os maiores desejos nos consumidores seduzidos.

Já que funcionava tão bem e a maravilha parecia não ter limites, algum gênio criativo tratou logo de adaptar o conceito para vender um produto ainda mais precioso: você! Nascia o marketing pessoal. Área do conhecimento administrativo supostamente capaz de transformar qualquer idiota no mais brilhante profissional, pelo menos até que ele pudesse passar pelas entrevistas e se alojar entre as fileiras de alguma empresa.

Lindo por fora, vazio por dentro

Inúmeros livros foram publicados para dar dicas ao profissional de como sair-se bem nos testes e seleção de entrevistas. Palestras apresentavam os truques fantásticos para você parecer aquele sujeito competente, determinado e inteligente que as empresas desejam contratar.

Naturalmente, todos sabem o final dessa história. Aos poucos, revelou-se o óbvio: ninguém consegue enganar todo mundo, o tempo todo.

A constatação de Collins e Porras, autores do livro citado anteriormente é fundamental. As empresas, como as pessoas, mantêm ao longo do tempo um conjunto essencial de valores que as sustenta durante toda sua existência. Dêem a isso o nome que quiserem: crenças, princípios fundamentais, etc. Não é o mais importante aqui.

Essas crenças são as bases do que constituem o ser humano. Elas permeiam todos os seus comportamentos e atitudes e servem de referência a tudo que se faz. São elas que o direcionam para buscar o sucesso a qualquer custo ou procurar a cada instante um conhecimento novo, errar e aprender com o erro ou escondê-lo o mais que puder.

De onde nascem as crenças?

Essas crenças são apreendidas a cada instante pelas inúmeras experiências que vivemos desde nosso nascimento. Boa parte delas é resultado do processo de socialização, que ocorre nos primeiros anos de vida junto com a família. Dado seu longo processo de formação, esses valores são profundamente enraizados no indivíduo e, por isso mesmo, necessitam de muito esforço para serem mudados.

O indivíduo que tem esses valores “humanistas” e vive segundo aquilo que acredita, alcança uma coerência entre pensamentos, sentimentos e ações que mobiliza toda sua energia para construir aquilo que deseja. Daí vem à consistência de sua carreira, sua motivação para ir além do esforço comum e, conseqüentemente, o sucesso.

Ao contrário, a incongruência entre crenças e ações leva a uma dissipação de energia, o indivíduo se perde na busca ilusória do sucesso rápido e fácil e nunca o alcança ou, quando o consegue, o faz a um alto custo e por um período passageiro.

Ajuda ou atrapalha?

Infelizmente, viver segundo a égide de valores gloriosos normalmente não é fácil. Via de regra isso exige coragem, determinação e, muitas vezes, renúncias.

Imagine alguém, por exemplo, que tenha o conhecimento como valor fundamental em sua vida. Viver coerentemente com esse valor exigirá dele, muitas vezes, abrir mão de um final de semana na praia com os amigos em troca de horas a fio estudando para identificar o âmago de uma questão importante, ou dedicar os melhores momentos de sua juventude estudando em uma universidade.

Da mesma forma, alguém que possua na “verdade” uma crença fundamental em sua vida, sofrerá provações a cada instante. Do suborno no trânsito para escapar da multa à fila de banco que não pode ser furada, mesmo estando-se terrivelmente atrasado.

Há algum tempo, as empresas contratavam profissionais e parceiros pela suas competências técnicas e os demitiam posteriormente pelas suas incapacidades comportamentais (posturas não condizentes com o perfil do cargo, valores não confiáveis, etc.). Com o tempo, perceberam que a diferença entre os profissionais que são realmente bons e aqueles que apenas querem parecer sê-los reside em sua grande parte no conjunto de valores que eles trazem consigo.

Investir em marketing pessoal é importante, mas simples técnicas não podem proporcionar-lhe uma carreira bem sucedida. No máximo, farão você por algum tempo parecer que a possui. É uma questão de opção.

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